Sábado, 14 de Maio de 2005

GILLES DELEUZE - MAPA DA INQUIENTAÇÃO

deleuz2_thumb.jpg

MatisseBlueYellow-t.jpg

Mapa da inquietação




Entre 1978 e 1981, Gilles Deleuze orientou, em Vincennes, um curso acerca de alguns conceitos trabalhados por Espinosa. Tal como noutras ocasiões, a abordagem heterodoxa do filósofo francês produziu inesperados efeitos, que ainda hoje ecoam no pensamento contemporâneo. Na última aula do seminário, Deleuze fala de panteísmo e da comunhão passível de acontecer entre o homem e o sol, servindo-se de textos de T. E. Lawrence para exemplificar os diferentes géneros do conhecimento que atravessam essa relação extrema: "Van Gogh pintava de joelhos. Os pores-do-sol forçavam-no a pintar quase deitado para que o olho de Van Gogh tivesse a linha do horizonte o mais baixa possível. Nesse momento, ter um cavalete não tinha mais nenhum significado. Existem cartas de Cézanne onde ele fala do mistral: como compôr a relação tela-cavalete com a relação do vento, e como compôr a relação do cavalete com o sol que declina, e como terminar de tal forma que eu pintaria por terra, que eu pintaria com a barriga junto à terra?"
Deleuze vai ainda mais longe, quando aborda o terceiro género de conhecimento: a união mística, que supera a comunhão anterior. Quem atinge este "modo de distinção intrínseca", pode mesmo afirmar, segundo o filósofo, não só que "Deus é sol", mas também que "eu sou Deus". Trata-se aqui, continua, de uma espécie de identidade que "mantém a distinção interna entre a sua essência singular, que lhe pertence, a essência singular do sol e a essência do mundo". A complexidade deste tipo de relações pode também encontrar-se na filosofia budista, nomeadamente na variante zen, tal como nos é revelado num texto de Dogen Zenji (1200-1253): "Ao ver formas com o corpo e mente inteiros, ao ouvir sons com todo o corpo e mente, compreendemo-los intimamente. (...) Estudar o eu é esquecer o eu."
Se Van Gogh procurou devir sol e Cézanne vento - nalgumas das suas últimas pinturas, como "O Jardineiro" (1900-1906) ou "As Grandes Banhistas" (1898-1905), observa-se mesmo as personagens representadas a fundirem-se com a paisagem envolvente -, se Lawrence atingiu um estado de comunhão mística com o sol e os mestres zen conseguiram chegar à iluminação que os faz esquecerem-se do eu, as pinturas de João Queiroz (Lisboa, 1957) patentes na Quadrado Azul fazem-nos participar numa experiência de algum modo próxima dos exemplos anteriores, pois, nelas, acontece a revelação de uma identidade absoluta entre o artista e as formas representadas. É como se a natureza fizesse já parte do pintor e este não necessitasse de a ter diante de si para a desenhar, pois conhece-a de cor, em todas as suas variações.
"Estranho a paisagem que não seja a seriedade de um retrato", escreve João Queiroz num dos seus aforismos englobados pelo título "Mapa de Fortificação e Estranheza". Num outro, lê-se: "Estranho que sob o programa naturalista apenas se insinue uma apetência de ordem e um contentamento mole e tonto, quando o natural seria mostrar uma inquietação para além dos nomes e das fronteiras e dos usos que temos para as coisas". As 18 pinturas expostas vão traduzindo em cores, linhas e intensidades uma natureza a devir carne, prova da participação do artista no objecto pintado, ele próprio imagem de quem o pintou. Os trabalhos são assim a expressão de uma totalidade formada não só pela relação interna entre os elementos que os compõem, mas também por tudo aquilo que do artista nos é revelado. Pode dizer-se, tal como escreveu o mestre japonês Hakuin no século XVIII, que "esta arte, produzida por algo que não podemos conhecer totalmente, é como a natureza inata da mente que opera em todas as nossas actividades quotidianas".
E, de repente, damo-nos conta de que sempre conhecemos estes movimentos, estas cores, estas linhas, que nos são oferecidas por estas pinturas; que também nós participamos das estranhezas do artista; enfim, que esta natureza é ela própria um retrato nosso: "Estranho que a natureza não se vista como nós nos vestimos, mas que use a mesma progressão; osso, carne, pele, veste, botão, brilho no botão... assim como nos quadros".









publicado por jmdslb às 17:39
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Vita Nuova

. ...

. Saudade ll

. ANGEL

. SIRENIA

. OT3P

. STEVE VAI

. The Raconteurs

. Dimebag Darrel

. Zakk Wilde's tribute to D...

.arquivos

. Outubro 2011

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

.links

.Player Guitar

EscudoAca.jpg

philosop.gif

Zakk Wylde Zakk Wylde: National Anthem

Add to My Profile | More Videos
logo_che.gif

.KLIK EM CADA VIDEO-THERÍON

.FILOSOFIA E LITERATURA

.Contador



.MYSPACE - BANDAS

.subscrever feeds