Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005

L'INSTANT DE MA MORT

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O INSTANTE DA MINHA MORTE

I


Recordo-me de um jovem - de um homem ainda jovem
impedido de morrer pela própria morte - e talvez por
erro da injustiça.
Os aliados tinham conseguido instalar-se em solo francês
já vencidos, os Alemães lutavam em vão com uma ferocidade
inútil.
Numa casa enorme (o Castelo,assim a chamavam), bateram
timidamente à porta. Sei que o jovem a foi abrir aos
hóspedes que muito provavelmente pediam socorro.
Desta feita, gritaram:«todos para a rua».Um tenente nazi,
num francês vergonhosamente normal,mandou sair primeiro
as pessoas mais velhas, e a seguir duas jovens.
«Rua,rua.»Berrava ele agora.O jovem nem sequer tentava
fugir,antes avançava lentamente,de um modo quase sacerdotal.
O tenente abanou-o,mostrou-lhe cartuchos,balas,tinha mani-
festamente havido combate,o solo era um solo marcial.
O tenente tartamudeou numa linguagem estranha e,colocado
diante do nariz do homem já menos jovem (envelhece-se de-
pressa) os cartuchos,as balas,uma granada,gritou com
clareza:«Eis o que vos espera».
O nazi alinhou os seus homens para,de acordo com as regras
atingirem o alvo humano. O jovem disse:«Mande,ao menos,
entrar a minha família».Ou seja:a tia(de 94 anos),a mãe mais
nova,a irmã e a cunhada,um longo e lento cortejo,silencioso
como se tudo estivesse já consumado.
Sei - sabê-lo-ei - que aquele que os alemães já tinham na
mira,não esperando senão a ordem final,experimentou então
um sentimento de extraordinária leveza,uma espécie de
beatitude (nada,porém,que se parecesse com felicidade) -
alegria soberana? O encontro da morte e da morte?
No seu lugar,não tentarei analisar este sentimento de
leveza. De repente,ele era talvez invencível.Morto -imortal.
Talvez o êxtase.Ou antes o sentimento de compaixão pela
humanidade sofredora,a felicidade de não ser imortal nem
eterno.Doravante,ficou ligado à morte por uma amizade sub -
reptícia.
Nesse instante,brusco retorno ao mundo,deflagrou o barulho
considerável de uma batalha próxima.Os camaradas do resistente
queriam socorrer aquele que sabiam em perigo.O tenente afas-
tou-se para se aperceber do que se passava. Os alemães conti-
nuavam alinhados,prontos a permanecer assim numa imobilidade
que suspendia o tempo.

Maurice Blanchot
Tradução - Doutora Fernanda Bernardo





publicado por jmdslb às 21:49
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1 comentário:
De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 18:51
O inferno suspenso num lapso de tempo que jamais apagaremos..
Olá João. Tentando retornar aos poucos às lides bloguísticas..
As minhas desculpas, amigo, mas o jornal tem sido o único culpado.
Abraços fraternosletrasaoacaso
</a>
(mailto:letrasaoacaso@hotmail.com)


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