Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2005

ACERCA DOS PRESSUPOSTOS DA SENSAÇÃO PARA O EMERGENTE ESTADO DE NATUREZA EM T.HOBBES

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I N T R O D U Ç Ã O



O objecto deste programa de trabalho visa essencialmente demonstrar como os pressupostos de uma teoria da natureza humana, inculcada através da sensação, da imaginação e das faculdades do corpo e da mente, se segue para o corolário da practibilidade de uma verdadeira filosofia política onde aí serão resolvidas todas as disposições das regras e leis políticas após o tal estado de natureza que T. Hobbes descreve no cap. XIII da primeira parte do "Leviatã".
Partindo de uma orientação empirista e uma vez que a filosofia cartesiana se espalhou também em Inglaterra, aí todavia, devido ao ambiente natural desse empirismo sob influência de Bacon, a reacção diante do sistema de Descartes foi diversa da que se observou no restante continente. Por certo aquele princípio que a via racionalista colocava como fundamento da própria especulação, isto é, a ideia do espírito como pensamento puro, que advem no seu conhecimento segundo o plano das ideias inatas, é negado pelo empirismo. A este princípio opõ-se o princípio da origem da experiência, a posteriori, do conhecimento. É neste contexto que surge a inevitabilidade da confrontação por parte do empirismo antropológico de Hobbes perante o racionalismo do filósofo françês. Assim o contraditório pró-activo do empirismo hobbesiano atinge o auge com as tão faladas objecções às “Meditações sobre a filosofia primeira”, crucial no desenvolvimento do nosso trabalho. Esta obra cartesiana escrita em 1641 como foi alvo de algumas objecções, obrigou mais tarde a Descartes juntar e publicar as objecções feitas com as suas respostas. Uma das objecções mais importantes como já tinha referido foi feita por T. Hobbes, que nas suas viagens pela Europa contacta com Mersenne e Galileu, e que se interessou pelas matemáticas, física onde procurava aplicar os seus princípios à filosofia. Como obras principais e núcleo principal do nosso estudo escreveu o “Leviat㔠e “Os Elementos da Lei Natural e Política”. Por vezes Hobbes pode parecer profundamente racionalista, e isso pode levar-nos a estabelecer uma comparação entre o seu racionalismo e o de Descartes. Nascidos com oito anos de diferença, alcançam ambos na mesma época, um em 1637, o outro em 1642, a glória filosófica. Tiveram em comum a protecção do padre Mersenne e frequentam os mesmos círculos durante mais de uma década. Tanto um como o outro tentaram tomar, na explicação do mundo e do homem, a razão por princípio e a razão por instrumento. Os seus pensamentos tocam-se tão proximamente que poderemos colocar o problema da anterioridade das descobertas de um face às do outro. As suas susceptibilidades encontram-se diluídas. As 3ª objecções “feitas
por um célebre filósofo inglês”, às meditações cartesianas, são redigidas com dureza e Descartes responde com uma aspereza nunca dissimulada. No prólogo do “De Corpore”, Hobbes menciona as grandes figuras que fundaram e que fizeram provir a filosofia natural, citando Copérnico, Galileu, Darwin entre outros, mas evita falar em Descartes, manifestamente exprimindo uma rivalidade existente entre ambos. O próprio Descartes escreveu sobre Hobbes :"considero-o mais hábil na moral do que na metafísica, ou física, e por isso não posso aprovar os seus princípios e as suas máximas, que são más e perigosas, pois ele supõe que todos os homens são maus"1. Para Hobbes a razão não tem uma significação ontológica, não é um princípio de existência, nem uma faculdade metafísica. A razão não é mais do que um raciocínio, isto é, do segundo uma certa ordem dada, dependendo de certos princípios. Porque a razão puramente formal não revela nenhum dos princípios da natureza, permite através da análise, isto é por subtração e decomposição de todos os seus elementos, encontrá-los na experiência. Para Hobbes pode-se conhecer racionalmente o mundo, fazendo experiências em conformidade com a razão. Assim o racionalismo hobbesiano apela ao empirismo, apresentando este como o seu complemento sem o qual ele se encontraria desprovido de conteúdo. Como se pode verificar na sua obra "Leviatã" onde ele demonstra o seu racionalismo/empirismo : «Pois não há concepção no espírito do homem que primeiro não tenha sido originada, total e parcialmente nos órgãos dos sentidos”2. Como expõe nas suas obras, Descartes procura uma matemática universal. Para ele os primeiros princípios, nomeadamente os princípios da existência apenas podem ser fornecidos pela metafísica, raciocínio natural da ciência. Hobbes por seu lado defende que o estudo de qualquer fragmento da realidade permite descobrir empiricamente os princípios da sua geração e a sucessão de causas e efeitos que constituem essa realidade. Para ele é suficiente proceder à análise a partir do que nos é dado pelos sentidos. Não conhecemos um corpo antes dos efeitos que o manifestam e a experiência é suficiente para nos revelar tudo o que se pode conhecer nele, isto é dizer, os fenómenos, as aparências. “Para ele não há raciocínio e por consequência, nem conhecimento acerca do que é sobrenatural”.3 Descartes produz uma filosofia do universo onde o homem procura o seu lugar, Hobbes produz uma filosofia do homem, uma verdadeira antropologia. Um é geómetra e físico, o outro é humanista e moralista. Um é teórico, que aceita provisoriamente colocar a acção entre parêntesis, o outro é um homem de acção, um filósofo de acção.



1.POLIN, Raimond. ; “Politique et Philosophie chez T. Hobbes”, 2ª edição, Paris, librairie philosophieque, J. Vrin, 1977, p. 32.
2. HOBBES, Thomas, “Leviatã”, Impresa Nacional da Casa da Moeda, 1999, p.23
3. POLIN, Raimond, op. cit. p. XIV.


A continuar - AS OBJECÇÕES DE T. HOBBES A DESCARTES


publicado por jmdslb às 18:02
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1 comentário:
De Anónimo a 25 de Janeiro de 2005 às 09:48
Um texto muito complexo. Muito bem elaborado sim senhor! Os sentidos dão-nos sensações que por vezes estão erradas , mas somos dotados da intuição principalmente nós mulheres , e eu acredito no que sinto . BEIJOCAMónica
(http://mco.blogs.sapo.pt)
(mailto:monicacarvalho1@sapo.pt)


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