Sexta-feira, 19 de Novembro de 2004

SIMBOLOGIA RICOUERIANA IV - O MITO

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A EPOPEIA DO GILGAMESH
A RENÚNCIA DO DESEJO QUE
GERA O SOFRIMENTO



Era uma vez um rei da cidade de Uruk na Mesopotâmia (por ironia do destino, hoje o Iraque), que atormenta com a sua prepotência, desejos e arrogância os habitantes daquela cidade. Os deuses, ouvindo o apelo do povo, criaram um rival, um jovem de nome Enkidu para que o desafiasse. Lutaram furiosamente entre si, mas para grande surpresa de todos, tornaram-se amigos inseparáveis.
Gilgamesh que sonhava com feitos históricos desafiou o seu amigo, Enkidu, a irem a ambos combater um ogre, um «grande mal» que assolava as florestas. Venceram-no, tendo a deusa do amor, Ishtar, ficado apaixonada pela beleza e força de Gilgamesh. Este, no entanto, rejeita-a, lembrando-lhe os destinos miseráveis dos seus antigos amantes. A deusa furiosa amaldiçoa Enkidu, condenando o maior amigo de Gilgamesh à morte. Destroçado, Gilgamesh faz uma grande e penosa viagem procurando o único homem abençoado pelos deuses, de nome Utnapishtim, que não só foi poupado ao Dilúvio como passou a viver eternamente no paraíso, no «jardim do Sol», nas terras de Dilmun. Quando Utnapishtim avistou Gilgamesh, totalmente prostado com tal viagem, inquiriu-o sobre as suas motivações. Mas Gilgamesh perguntou-lhe:”Como posso descansar? - [o meu amigo] tornou-se pó e também eu morrerei e me deitarei na terra para sempre. [..] Oh pai Utnapishtim, tu que entraste na assembleia dos deuses, desejo interrogar-te acerca dos vivos e dos mortos! Como encontrarei a vida que procuro?». Utnapishtim narrou-lhe em primeiro lugar a história do seu destino. Um dia os deuses decidiram destruir com um dilúvio terrível a humanidade pois ela tinha-se tornado extremamente ruidosa. Mas o deus já nosso conhecido, Ea, o deus das águas doces dos lagos e dos rios, o deus que tinha feito os homens a partir de argila, decidiu poupar um deles, Utnapishtim, avisando-o nos seus sonhos. “Constrói um barco, abandona o que possuis e procura a vida, despreza os bens do mundo e conserva viva a tua alma. [...] Depois leva para dentro do barco a semente de todas as criaturas vivas.” [...]Durante todo o dia grassou a tempestade, aumentando sempre a sua cólera; caía sobre o povo como as vagas da batalha [...].


Até os deuses estavam aterrorizados pela inundação e fugiram para o mais alto céu [...] encolhidos como cães. [..] Durante seis dias e seis noites [...] tempestade e inundação enfureceram-se juntas como hostes guerreiras. Quando o sétimo dia despontou, amainou a tempestade do Sul, o mar tornou-se calmo, a cheia sossegou; olhei para o rosto do mundo e havia silêncio: toda a humanidade se transforma em barro. [...] Então inclinei-me profundamente, sentei-me e chorei; as lágrimas corriam-me pelo rosto, porque por todos os lados havia o deserto de água. [...]
Quando o sétimo dia despontou, soltei uma pomba e deixei-a ir. Ela voou, mas não encontrando lugar onde poisar, voltou. Então soltei uma andorinha , e ela voou, mas não encontrando lugar para onde poisar, voltou. Soltei um corvo, ele viu que as águas se tinham retirado, comeu, voou à volta, grasnou e não voltou.
Então abri tudo aos quatro ventos, fiz um sacrifício e derramei uma libação no alto da montanha”. E os deuses decidiram abençoar Utnapishtim. Depois de narrar a sua história a Gilgamesh, perguntou-lhe:«Quanto a ti, Gilgamesh, quem reunirá os deuses para a tua salvação, para que possas encontrar essa vida que procuras? Mas, se o desejas, vem e submete-te à prova: basta resistires ao sono durante seis dias e sete noites.» Mas Gilgamesh estava muito cansado e pouco tempo resistiu acordado, perdendo, assim, a imortalidade. “Utnapisshtim disse à mulher:«Olha para ele agora, o homem forte que queria ter a vida eterna, mesmo agora, as névoas de sono passam sobre ele.» A mulher de Utnapishtim apiedou-se de Gilgamesh e pediu ao seu marido que lhe revelasse um segredo antes deste partir. E então o homem abençoado pelos deuses confidenciou a Gilgamesh:”Existe uma planta que cresce debaixo de água, que tem espinhos como uma silva, como uma rosa; ela te ferirá as mãos, mas, se conseguires apanhá-la, então terás nas mãos o que devolve ao homem a juventude perdida.” Gilgamesh não hesitou e mergulhou no fundo das águas onde encontrou aquela flor maravilhosa. Decidiu retornar depressa para a sua capital, Uruk, de forma a que todos pudessem sentir a força revigoradora daquela planta mágica. No caminho de volta, decidiu banhar-se num lago. No seu fundo encontrava-se uma serpente e esta “sentiu a suavidade da flor. Soltou para fora da água e apoderou-se dela, e logo mudou de pele e voltou para o poço. Então Gilgamesh sentou-se e chorou, tendo as lágrimas corrido pelo rosto. “Regressou à sua cidade e tornou-se um homem sábio, pois como diz o final do texto “fez uma longa viagem, conheceu o cansaço, esgotou-se em trabalhos e, ao regressar, gravou numa tábua de argila toda a história”. Assim enveredou pelos caminhos da sapiência tornado-se um verdadeiro sábio.


publicado por jmdslb às 18:54
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De Anónimo a 19 de Novembro de 2004 às 23:44
Está sublime, migo... Adorei a mensagem subjacente :)). Beijinhos grds(In)perfeita
(http://inperfeicao.blogspot.com/)
(mailto:In_perfeita@hotmail.com)


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