Terça-feira, 9 de Novembro de 2004

ESPANTO DE QUÊ ?

medusecaravage.jpg


Amigos:

Tenho de escrever-vos esta mensagem enquanto estou com raiva e vontade de sair pelas ruas de Nova Iorque, a cortar cabeças, montado num cavalo branco.

Como era do conhecimento de algum de vós, esta manhã eu deveria passar por Lisboa, em escala, rumo a Luanda onde participaria num encontro de quadros na diáspora. O meu plano era manter-me apenas algumas horas em Lisboa, mas, posteriormente, sair de Luanda a 11, de modo a que pudesse ficar três dias em Lisboa (e um na Vidigueira para visitar uma professora de italiano), uma vez que a minha passagem para Nova Iorque estava marcada para 14 de Novembro.

(E estava com muita vontade de sair de Nova Iorque, pois as eleições deixaram muita gente consternada, o que tem marcado negativamente o ambiente, sobretudo da minha universidade).

Na tarde de ontem procurei por todos os meios – junto à minha embaixada em Washington, junto ao consulado português em Nova Iorque e junto a Agência da TAP em Lisboa – saber se poderia viajar para Lisboa sem visto, uma vez que deveria apanhar o voo ainda nesse mesmo dia. Foi-me dito que sim, que não precisava de qualquer visto para escalar Lisboa. Mas ainda assim, se quisesse entrar em território português poderia fazê-lo, uma vez que a minha residência caducara em Julho, o que supostamente me daria o direito a uma espécie de ano de graça, desde que os Serviços de Estrangeiros Fronteiras tivessem registado o pedido de renovação que eu tinha feito.

E de facto, esta manhã, às seis da manhã, cheguei ao Aeroporto de Lisboa. Primeiro fui ter com as funcionárias da TAP e foi-me dito que não tinham conhecimento de nenhuma ligação para Luanda; em seguida, tentei passar a fronteira, mostrando a fotocópia da minha autorização de residência. Foi-me dito que não servia; tinha de mostrar o talão. Disse que o tal papel não estava comigo, mas sim com uma amiga e advogada, a Awa Baldé. Disseram-me que não havia problema, desde que conseguisse diligenciar que a minha amiga trouxesse o papel... perguntei se podia usar o telefone ao que me foi dado um rotundo ‘não’.

O que interessava ao funcionário era saber se eu tinha renovado a autorização. E uma rápida pesquisa no computador mostrou que sim. Portanto, parece-me que o talão neste caso se tinha tornado desnecessário, uma vez que ele já tinha tomado conhecimento com a verdade que o papel deveria expressar: o facto de ter renovado o documento.

Então, voltei ao Balcão da TAP, onde comecei uma longa conferência com uma funcionária de nome Vera. Ela disse-me que de facto conhecia o procedimento pois no dia anterior tinha chegado uma senhora dos Estados Unidos, chamada Amélia Cruz, e tinha sido encaminhada para Luanda. Tentei saber mais dados sobre que companhia que tinha a senhora utilizado: a Vera não sabia. Mas acrescentou que o meu nome estava na lista para seguir para Luanda ontem, 4, que se tivesse vindo ontem certamente teria partido. Tentei fazer-lhe ver, pela lógica, que não era possível chegar a Lisboa a 5 e partir para Luanda a 4 – porque o tempo é assim mesmo, não volta atrás. Mas acho que não me compreendeu (e falávamos em português: eu que pensei que fosse ficar aliviado quando pela primeira vez depois de três meses tivesse um burocrata a falar a mesma língua que eu).

Depois da conversa falhada, perguntei-lhe se podia telefonar; ela deu-me um cartão, tirado de um molho onde havia vários, o que me levou a presumir que fossem precisamente para este efeito, em casos como o meu. Telefonei para a Awa, que atendeu prontamente embora não fossem ainda 8 da manhã. A Awa disse que me trazia o documento, era só o tempo para sair de casa e passar pelo escritório.

Às 8:30, os guichets da TAP ficaram vazios. E fiquei horas à espera. Perto do meio dia chegaram as duas senhoras e eu muito calmamente lhes disse que ficaria muito agradecido se me pudessem arranjar um lugar no mesmo avião para regressar às 13:00 (hora de Lisboa) a Nova Iorque. Neste momento, D. Vera teve a luminosa ideia de me dar um papel com os números de telefone do meu consulado e dos serviços da TAAG (Transportadora Angolana) em Lisboa. Eu disse-lhe que era muito tarde, e que estava muito decepcionado pela forma como tinha sido tratado. Disse-lhe que achava estranho que me fosse permitido embarcar para Lisboa sem visto (os funcionários das Companhias Aéreas são muito sensíveis a estas questões) e por isso tinha julgado que houvesse algum plano para resolver o meu caso. E de facto havia: era apenas dizer por que companhia tinha a D. Amélia Cruz viajado no dia anterior.

[Tinha pensado e decidira voltar para os Estados Unidos; porque, primeiro, a se confirmar que não houvesse voo para Luanda na sexta teria de dormir no aeroporto; segundo, ainda que me fosse permitida a entrada em Lisboa, não sei se estaria disposto a passar por tudo o que passei por ter a residência caducada no momento em que vim para Nova Iorque.]

A D. Vera, como prova da sua boa vontade, disse-me que me tinha dado um cartão, procedimento que não se costuma fazer.

Foi-me dado o OK. E assim voltei a Nova Iorque num voo de sete horas em que por sinal de protesto não comi, não bebi, não li e não fui uma única vez à casa de banho. Ah, e para acabar a história: quando cá cheguei encontrei uma mensagem da Awa, em que dizia que esteve no Aeroporto com o meu talão e foi-lhe dito que não tinha sido retido ninguém com o meu nome. O pior é que os do SEF tinham razão: eu não estava retido; só não podia passar ou telefonar.

Este é o resumo do meu dia (terá alguma coisa a ver com o facto de ter vindo a ler ‘The Inferno’, edição bilingue italiano-inglês, de Dante?). Tomem cuidado quanto lerem o tal livro num voo da TAP.

Fica uma pessoa fechada na Universidade a estudar o poder, e a começar a perceber que o poder não emana de um centro, e que o poder não coage, mas que o poder está disseminado, e que as pessoas a ele obedecem voluntariamente. E numa viagem de estudo a Lisboa, numa verdadeira aula prática de Antropologia, vê de facto essa disseminação do poder, que autoriza um funcionário, em nome de uma ficção que se chama fronteira, ter o poder a mantê-la sentada, ou deitada, num banco de ferro, a olhar para o relógio, sem poder ir à casa de banho, por causa da mala, sem poder telefonar. O mesmo para uma funcionária, a quem já é difícil explicar a ordem da sucessão dos dias, poder olhá-la e não ver mais do que medo e desespero e fome talvez e cansaço certamente. E ser humilhada por um polícia da fronteira que deixa toda a gente passar, menos a si, a quem pede que abra a mala, e lhe mostre as suas coisas, e lhe pede para ligar o computador, e exponha o conteúdo do seu estojo de toilette aos olhos de todo o mundo, e folheie os seus livros, em busca de quê? E só hoje, num lampejo de clarividência, que me deu vontade de desatar a correr de alegria pelo aeroporto, percebi porque razão Walter Benjamim se tinha suicidado da forma que nós conhecemos, ao não lhe ser permitido que passasse uma fronteira (penso que em Espanha). O suicídio acabou por ser o único meio pelo qual nenhum guarda fronteiriço poderia exercer poder sobre o seu corpo.

António Tomás

[Depois de lhe pedir para publicar este relato, o António Tomás acrescentou o seguinte:]

Tu não imaginas como eu me sinto. Não me apetece falar com ninguém. Passo todo o tempo a remoer esta história e a pensar nas coisas que não escrevi, como o espanto da mulher por verificar que o meu passaporte era verdadeiro e que o visto não tinha sido falsificado. Acho que por isso não me ajudaram. Só assim percebo tanta indiferença.

Tens carta branca para publicar. A mim também interessa que esta história seja conhecida. Isto é o drama dos milhares de Benjamins que todos os dias tentam cruzar esta coisa estúpida que são as fronteiras, produtoras de tantas arbitrariedades e bizarrias.

Ao não entrar em Lisboa perdi sim muita coisa. Esta semana foi dura (as coisas na Universidade, a política americana) e queria muito estar com os meus amigos - sabes, esta coisa idiota que não reconhece fronteiras. E me foi negado esse direito, em nome de uma merda que é a inviolabilidade do espaço português.











publicado por jmdslb às 02:25
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5 comentários:
De Anónimo a 10 de Novembro de 2004 às 00:41
Enquanto a lei não for modificadaa, casos semelhantes, deverão acontecer. "Dura lex, sed lex"!nadaespecial
(http://amoergosum.blogs.sapo.pt)
(mailto:amoergosum@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 22:52
xiiiii migo!!!!!mas que salsada!!! nao é so em portugal que ha destes filmes....e agora???paulinha
(http://paulinha.blogs.sapo.pt)
(mailto:lita_kida@hotmail.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 22:52
xiiiii migo!!!!!mas que salsada!!! nao é so em portugal que ha destes filmes....e agora???paulinha
(http://paulinha.blogs.sapo.pt)
(mailto:lita_kida@hotmail.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 19:36
Xi que coisa mais complicada...Tudo isto poderia ter ganho outros contornos se as pessoas fossem ao menos mais humanas...digo eu...beijo, João.MWoman
(http://devaneio.blogs.sapo.pt/)
(mailto:MWoman@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 16:41
Infelizmnete lei é lei. Compreendo a tua costernação, mas é de facto assim...polittikus
(http://pornograffiti.blogs.sapo.pt)
(mailto:pp@sapo.pt)


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